Todos temos talentos, embora caiba a nós despertá-los
pela consciência de nossa força interior…

Por Ivan Carlos Regina Ivan Carlos Regina

O povo brasileiro é, por natureza, iconoclasta. Os ícones, como sabemos, são aquelas pinturas religiosas normalmente representando santos. A palavra iconoclastia aplica-se significando a destruição dos ídolos, dos mitos, dos heróis. No Antigo Testamento prega-se a quebra dos falsos ídolos, que teriam os pés de barro.

Desta característica da nossa cultura atávica aproveitou-se com magnitude os escritores do Movimento Modernista de 1922. Oswald de Andrade, através de suas piadas e caricaturas dos tipos sociais e Mário de Andrade com o seu “Macunaíma, o herói sem caráter” são exemplos típicos e felizes.

A iconoclastia é má? Não necessariamente.

Francis Bacon, filósofo inglês do Renascimento, culpava os ídolos, os quais classificava em quatro categorias, como culpados primordiais pela miséria do homem sobre a terra, pregando inclusive sua ampla destruição.

Não nos esqueçamos, porém, que a iconoclastia e a idolatria formam um processo dialético do qual nenhuma cultura pode se livrar sem grandes mazelas.

A iconoclastia é sadia quando assumimos um senso crítico, através da razão, questionando os novos valores que os ídolos nos apresentam, e julgamos sua validade e sua perenidade.

A iconoclastia é doentia quando não aponta nenhum paradigma, quando permite qualquer vileza com o argumento maniqueísta que “somos todos iguais”, por que deveria eu admirar alguém? Assim qualquer pecado, qualquer vilania pode ser cometida.

A idolatria é sadia quando, pelo foco no ídolo, vamos atrás de nossos ideais, queremos segui-lo e superá-lo, quando o herói é um catalisador das mudanças internas que se processam positivamente em todos os seres humanos, quando buscadas com firmeza.

A idolatria é doentia quando esconde um falso conteúdo ou quando humilha aquele que idolatra, apequena-o, ou quando a adoração é usada para subtrair do adorador.

Todos temos talentos, embora caiba a nós despertá-los pela consciência de nossa força interior.

Ultimamente temos assistido aqui no Brasil a um verdadeiro massacre de nossos ídolos, quaisquer que sejam eles:

- Airton Sena, cujas fofocas querendo manchar seu irreprochável caráter são tão ridículas que qualquer publicação séria devia ter vergonha de divulgá-las.

- O Rei Pelé, nosso querido Edson Arantes do Nascimento. Exigem do maior jogador de futebol de todos os tempos e eleito o “Atleta do Século XX” coerência política, num país que os próprios políticos não a tem.

Outro traço curioso do espírito brasileiro é a crença que se uma pessoa é um ídolo num quesito, também terá uma performance excepcional em todos os outros aspectos da atividade humana. Assim dançarinas viram apresentadoras de televisão, jogadores de futebol opinam de forma categorizada sobre aspectos da macroeconomia, políticos julgam concursos de misses, e por aí vai.

Vale notar que em minha opinião, o ídolo tem que ser julgado somente pelos aspectos e critérios no campo em que atua. Músicos devem ser avaliados por suas composições, jogadores de basquete por suas atuações dentro das quadras, escritores por seus livros, por exemplo.

Como está dito no meu pequeno “curriculum” inserido aí ao pé desta crônica, escrevo contos de ficção científica. Fui convidado por uma universidade paulistana para ler para a turma de Letras um pequeno conto meu. Depois de fazê-lo, e durante o debate com os alunos, um deles perguntou-me de uma passagem que eu havia lido e que ele não havia entendido, e pediu-me para explicá-la.

Eu disse que se ele não entendera era porque o parágrafo não estava suficientemente claro . Os demais alunos discordaram, e bradaram que haviam entendido tudo, e a má compreensão era somente daquela pessoa.

Discordei veementemente, e disse que o texto teria que ser sempre auto explicativo, que o autor não poderia vir anexo ao livro para explicar passagens obscuras. A classe concordou comigo.

Recentemente a mídia desportiva distorceu um fato a respeito do Rei Pelé: divulgou uma lista, supostamente escolhido por Edson Arantes, que continha a relação dos cem melhores jogadores de futebol de todos os tempos.

As críticas foram severas à relação de futebolistas escolhidos, e, a meu ver, infundadas.

O principal critério de escolha era a importância do jogador para o desenvolvimento do futebol no mundo, o quanto ele ajudou na expansão do esporte ao redor do planeta.

Havia um japonês na lista, que, provavelmente, não entraria nem na lista dos dez mil melhores jogadores da história do futebol. Inegável, porém, sua importância como ídolo de futebol num país populoso e importante economicamente como o Japão, como, aliás, pude presenciar “in loco”.

Além do mais, listas são escolhas pessoais.

Como vivemos um momento de absoluta iconoclastia, para fazer o pêndulo retornar ao centro listarei agora a relação de meus ídolos no xadrez, cônscio dos riscos que corro.

Como dizia aquele prócer de nossa intelectualidade futebolística, “quem está no fogo é para se molhar”.

Eis a minha relação de peças preferidas no xadrez; não são os melhores jogadores de todos os tempos, são só aqueles que eu mais gosto. Espero que os leitores consigam entender esta sutil diferença.

Robert James Fischer Como rei, Robert James Fischer, nascido em Chicago em 9 de março de 1943, pelo qual nutro uma admiração só comparável à James T. Kirk, capitão mítico da Nave Enterprise na série televisiva Star Trek. Nunca o xadrez esteve tão perto de se tornar um esporte de massa como naqueles magníficos dias do combate entre Fischer e Spassky pelo título mundial. O Ocidente parou para ver “nosso representante” arrebatar o cetro do bloco soviético. As implicâncias de Bobby, suas idiossincrasias, seu “sense of show” mas principalmente sua capacidade de jogo faz dele um jogador insuperável em sua época, e, em minha modesta opinião, se continuasse ativo, imbatível até hoje. Parodiando Macunaíma, tornou-se uma estrela de brilho maior e hoje vive no céu dos meus ídolos prediletos.

Judit PolgarComo rainha, escolheria Judit Polgar, porque ela é linda, educada e afável, e também criativa e fortíssima jogadora. Tive oportunidade de vê-la de perto (e até trocar algumas palavras no coquetel de encerramento) em Madri, no Torneio Internacional de 1992. Assisti a partida dela contra o urso soviético, Karpov, e posso garantir que o russo ficou impressionado com a agressividade daquela então adolescente, e se não fora a experiência dele ela teria ganhado a partida, que terminou empatada.

Henrique Costa MeckingMeu bispo das casas brancas (ao lado direito do rei, lugar de honra) seria o Mequinho. Tenho predileção por esta peça. E o Henrique merece a escolha, pelo que ele fez pelo jogo no Brasil e por sua luta épica contra a doença, com bons resultados graças à fé maravilhosa que ele possui. Mequinho virou até música do meu também ídolo Raul Seixas, que mais vou dizer?

Mikhail TalMeu cavalo do rei seria, sem dúvida algum, Mikhail Tal. Nascido em 9 de novembro de 1936 Tal representa, para mim, o jogador inventivo, ousado, espetacular. Aquele que foge das trilhas e o jogador que melhor compreendeu a importância dos tempos no xadrez. Nasceu em Riga, na Letônia. Criou partidas memoráveis, peças de uma qualidade inaudita que atestam sua permanente busca pela beleza na frente do tabuleiro.

Alexander AlekhineMinha torre do rei seria Alexander Alekhine. Este nascido russo mas naturalizado francês é quase uma unanimidade entre os jogadores. Sua importância para a compreensão do jogo de forma holística, sua competência e precisão tornam-no incomparável. Fred Reinfeld falava “Nenhum mestre, seja em que período for, pode aproximar-se, mesmo remotamente, da consistência, do conceito artístico, da profundidade e da riqueza dramática das produções enxadrísticas de Alekhine”. Alia de forma impressionante estratégia conduzida por planos táticos envolventes. Adolf Anderssen

Meu bispo da dama seria o genial Adolf Anderssen, autor das partidas mais célebres da história do jogo de xadrez. Bastaria a criação da “Imortal” e da “Sempre Viva” para ele estar sempre do lado direito de nosso coração. As duas são geniais, mas prefiro a última, quando os dois bispos se unem para asfixiar o rei adversário num amplexo mortal. Este alemão, sem dúvida, é o Goethe do xadrez.

Paul Charles MorphyComo cavalo da dama escolheria Paul Charles Morphy, o norte-americano nascido em New Orleans no século XIX, que, em sua época, encerrou a carreira por não encontrar adversário à sua altura. Normalmente descrito como “um artista do tabuleiro”, Morphy, é, na minha opinião, o primeiro grande mestre moderno da história do xadrez. Sua concepção estratégica do jogo seria válida até hoje. Merece acurado estudo sua capacidade de tirar vantagem de posições simples e aparentemente empatadas. Infelizmente, de tão genial terminou louco de fato.

José Raul CapablancaA torre da dama vai como troféu para quem gostou tanto delas: José Raul Capablanca y Graupera. O homem vaidoso que se vestia de terno branco com chapéu. Orgulhoso, egocêntrico, cada partida que jogava era encarada como um projeto único, aquilo que Horowitz chamava de “uma partida de Capablanca é como um templo grego”. Escreveu livros sobre sua carreira no xadrez, e a análise de suas partidas deixa entrever uma concepção cristalina, uma perfeição econômica de modos e tempos que jamais alguém obteve. Curiosamente, consegue comentar fragorosas derrotas pessoais como tendo atuado magnificamente, o adversário só ganhou porque ele foi vítima da sorte madrasta e ignara.

Passemos agora aos peões, homenagem singela aos verdadeiros homens do xadrez:

Miguel NajdorfComo peão da torre do rei, Miguel (Moishe) Najdorf, pelo muito que ele fez em prol do xadrez na América do Sul. Nascido na Polônia, ficou retido em 1939 na Argentina devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial e a invasão de sua pátria pelos nazistas. Mudou seu nome para Miguel e do nosso país vizinho e querido muito contribuiu para a difusão do xadrez. Criou uma Variante da Defesa Siciliana, e sempre foi um jogador de ótimo nível, com uma capacidade de calcular incomparável, principalmente às cegas.

Lubomir LujbojevicMeu peão do cavalo do rei vai para o iugoslavo Lubomir Ljubojevic, que sempre jogou para ganhar, lavrando lances de ouro na ganga impura dos caminhos desconhecidos. Seu afã de inovar custou-lhe muitas e memoráveis partidas, mas nutro por este jogador uma simpatia especial (dizem meus amigos que é pelo fato de ambos sermos enófilos, ou seja, apaixonados pelo vinho).

Joseph Henry BlackburneO peão do bispo do rei seria com certeza de Joseph Henry Blackburne, conhecido como “A Morte Negra” , porque era extremamente perigoso conduzindo as peças negras. Dizem também que só jogava bem bêbado, e era capaz de tomar uma garrafa de uísque durante uma partida mais longa. Enviado por seus concidadãos a um torneio, jogou bem enquanto o dinheiro arrecadado sustentou seu vício etílico. Com o terminar do vinho, foi-se embora sua inspiração… Brincadeiras à parte, era um jogador versátil e ousado, imprimia um caráter moderno ao seu jogo, tendo experimentado lances da Defesa Nimzowich e da Abertura Réti quando estes dois nem haviam ainda nascido. Antes de tudo, era um bom caráter, um excelente companheiro, não só na frente de um tabuleiro mas principalmente proseando numa taberna, o que é muito mais raro.

François André Danican PhilidorMeu peão da dama preferido é François André Danican Philidor, o maior gênio do xadrez do século XVIII. Foi músico da Corte e dominou a cena do xadrez por cerca de quarenta anos. Em sua obra “Análise do Jogo de Xadrez”, apresenta notável discernimento sobre a estrutura das peças e sua estratégia, imortalizada pela máxima “os peões são a alma do xadrez”, que se mantém válida até hoje.

Garry KasparovO peão do rei é o “reizinho” atual, nascido Garry Weinstein, mas que só se tornou famoso depois de adotar o sobrenome de sua mãe, após a morte de seu pai. Estamos falando de Garry Kimovich Kasparov. O nome de sua mãe é Klara Kasparian, armênia, cuja versão eslava tornou-se em Kasparov. Nascido em Baku, no Azerbaijão em 13 de abril de 1963, é o mais forte jogador da atualidade, com um rating incrível de 2804. Sem dúvida Kasparov, pelo título mundial, pela cisão que provocou na Fide e pelo noticiário mundial de seus jogos contra computadores representa o epítome do jogador de xadrez atual. Moderno, preciso, dinâmico, impingiu um caráter essencial que o credencia como o rei do xadrez contemporâneo.

Savielly Grigorievich TartakowerMeu peão do bispo da dama vai para Tartakower, nascido Savielly Grigorievich Tartakower no sul da Rússia. Posteriormente mudou seu nome para Xavier, estudou em Genebra e formou-se em leis na Áustria. Homem de fina cultura, escritor, poeta, tradutor e filósofo. Era altamente respeitado por seus pares, especialmente no tocante ao final de partidas. Também era famoso por seu espírito aventuroso e não ortodoxo. Suas partidas, nunca convencionais, e seus difíceis golpes de surpresa abalavam seus adversários e maravilhavam o público. Apesar de nunca ganhar torneios importantes, o que creditava à sua ousadia desmedida, Tartakower produzia brilhantes obras mestras. Também foi grande jogador às cegas e jornalista de xadrez. Autor da teoria dos erros no xadrez, os adjetivos que o caracterizavam eram fino, mordaz, irônico.

Karl SchlechterMeu peão do cavalo da dama é um jogador não tão amplamente conhecido do grande público: Karl Schlechter, mestre vienense de xadrez, era conhecido como o “Mestre dos Empates”, título que lhe foi atribuído por Tarrasch. Este apelido rapidamente “pegou”, não só porque a condução das partidas de Schlechter leveva ao empate, mas porque este, mesmo que em superioridade, não resistia aos apelos do adversário. Tinha uma natureza simples e modesta. Paradoxalmente, na disputa pelo título mundial contra Lasker, em 1910, Schlechter necessitava apenas de um empate para ser campeão, e, na última partida, jogou para ganhar (estranhamente) e perdeu o galardão. Foi alvo de gozações enquanto vivia, como Tarrasch que cunhou a expressão “remismonde”, alguma coisa traduzível por “O Grande Empatador”, mas com uma ironia que remete à “demi-monde”, ou mulher de virtude fácil. Em seus últimos anos dedicou-se a escrever obras sobre xadrez, e seu caráter benigno e bondoso fazem-me colocá-lo neste panteão de ídolos que elejo.

Ludek PachmanPor último, e como homenagem derradeira, escolho Ludek Pachman como meu peão da torre da dama. Nascido na Checoslováquia, este grande mestre e grande homem foi inicialmente comunista. Desiludido com a invasão de seu país pelos russos e o regime de Dubcek, foi recolhido à prisão e barbaramente torturado.

Emigrou finalmente para a Alemanha onde escreveu um grande número de obras que contribuíram para o ensino e o aprendizado do jogo de xadrez entre todos os amadores do nobre jogo. Como jogador, não foi medíocre, tendo atingido a excelente marca em seus jogos de 257 viórias, 168 derrotas e 448 empates, num score projetado de 55,1%. Morreu recentemente, em 2003, com 78 anos de idade. Soube como ninguém ensinar, bem como sua didática nunca foi superada. Grandes mestres jogam por intuição, e raramente conseguem transmitir seus conhecimentos a outras pessoas.

Poucas são as pessoas que conseguem dar ao mundo igual ao que recebem dele. Exceções e meus ídolos pessoais são aqueles que doam mais do que recebem. De nós, homens, Ludek Pachman recebeu sevícias que o fizeram sair da cadeia mais baixo do que entrou. Retribuiu à humanidade com seu amor, sua dedicação e seu carinho maior por todos nós, capivaras, que neste momento o declaramos ídolo e colocamos rosas brancas em seu túmulo imaginário.

A quem concede ao mundo beleza, que a paz esteja consigo. Eu, como cronista, lavro na pedra a alegria que tenho por compartilhar estes momentos com estes ídolos do esporte que amo, o xadrez, que se pratica em sessenta e quatro casas e infinitas esquinas…

Fonte: Clube de Xadrez

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